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Na quarta entrevista da série PROMOB-e Entrevista, Clarisse Linke fala sobre mobilidade urbana

Clarisse Cunha Linke é diretora executiva do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP)
Crédito: Divulgação/ITDP
Crédito: Divulgação/ITDP

Dando continuidade à série PROMOB-e Entrevista, conversamos com Clarisse Cunha Linke, Mestre em Políticas Sociais, ONGs e Desenvolvimento pela London School of Economics and Political Science (LSE), onde recebeu o prêmio Titmuss Examination Prize, em 2005. Clarisse é diretora executiva do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), organização sem fins lucrativos para promoção de um transporte sustentável e equitativo sediada em Nova York.

PROMOB-e: Para começar, como você se interessou por mobilidade urbana?

Na verdade, eu venho de políticas públicas. Fiz mestrado em Políticas Sociais e Terceiro Setor e fui trabalhar com o tema da mobilidade em Moçambique, com foco em mobilidade rural. Fui trabalhar com um projeto de empoderamento de mulheres camponesas e, por acaso, era sobre bicicletas, e assim comecei a estudar e pesquisar sobre o que a bicicleta oferece. Entendi mais amplamente de mobilidade e fiquei completamente apaixonada pelo tema. Fiquei em Moçambique, depois muitos anos na Namíbia dirigindo uma ONG sobre esse assunto, e quis voltar para o Brasil. Aqui, me aprofundei nas questões urbanas, e estou há sete anos no ITDP.

PROMOB-e: Como a mobilidade urbana pode ser usada para ter impactos sociais, criando uma cidade mais humana?

Acho que é importante entender que a mobilidade, o transporte, é uma alavanca para o empoderamento social, individual e coletivo também, na medida em que falamos de acesso. Por meio do transporte, consegue-se ter acesso às oportunidades econômicas e educacionais, às atividades sociais e de lazer, à cultura e à participação. A mobilidade urbana pode ser usada para ampliar o acesso à cidade, às oportunidades e a tudo que a cidade oferece. Não necessariamente isso quer dizer expandir o sistema de transporte, fazer com que as pessoas morem ainda mais longe mas possam entrar num trem bala e vir pra cidade, mas também redistribuir a cidade. Oferecer um sistema de transporte que seja capilar, que amplie o acesso e que seja financeiramente possível, mas também redistribuir as oportunidades econômicas, os equipamentos, a infraestrutura.

PROMOB-e: Em relação as políticas públicas de mobilidade urbana, como o Brasil se encontra? Quais são nossos principais desafios?

Temos o desafio da nossa ocupação atualmente, muito desigual, cada vez mais espraiada e periférica, um sistema de transporte de média e alta capacidade muito deficitário. Um marco fundamental é a Lei Nacional da Mobilidade Urbana, que foi promulgada em 2012 e exige que toda cidade com mais de 20 mil habitantes tenha um plano de mobilidade. Teoricamente, temos um caminho, a Secretaria de Mobilidade no Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) tem a atribuição de implementar a política. Esse é um interesse prioritário em todas as cidades, nas eleições, os parlamentares estão muito interessados nesse assunto. Não é que ele não seja relevante nas agendas, é mais uma questão de capacidade nossa de planejar, implantar e acompanhar. Acho que esses são os nossos principais desafios.

PROMOB-e: De que formas a tecnologia, como a mobilidade elétrica, pode ajudar nessa tarefa?

Eu acho que essa discussão sobre a eletromobilidade é fundamental, principalmente se entendermos o que temos como prioridade dentro da estrutura do Avoid-Shift-Improve. O Avoid é o efeito do planejamento urbano. Precisamos evitar ou diminuir as necessidades de deslocamento, fazendo cidades mais compactas, adensadas, com uso misto do solo, oportunidades mais bem distribuídas. No Shift, garantimos que, quando tem que haver o deslocamento, que ele seja feito com transportes sustentáveis: meios de transporte coletivos, que são os mais eficientes, e transportes ativos, a pé e por bicicleta. E temos essa terceira caixinha que é a do Improve, com veículos diversos.

A tendência é falar dos carros elétricos, e principalmente considerando a matriz energética do Brasil, eles podem trazer um benefício do ponto de vista de emissão, mas não resolvem nosso problema de mobilidade das cidades. Gosto de pensar no Improve fortalecendo a estratégia do Shift, em como os avanços da tecnologia vão nos ajudar a enfatizar o transporte público. No meu entender, a solução está no transporte público coletivo e nos transportes ativos. Os veículos elétricos podem não só melhorar emissões, mas também fazer com que a qualidade do serviço seja muito melhor.

PROMOB-e: Gênero e classe são relevantes na análise da mobilidade urbana? Como esses aspectos podem ser considerados na realidade brasileira?

Gênero, classe, raça e idade são questões fundamentais para a mobilidade. Inclusive acho que é muito importante, no contexto brasileiro, falarmos de gênero, mas nunca desvinculado de raça. Porque quando olhamos onde a população está distribuída no território, as mulheres negras estão mais distantes, nas periferias das regiões metropolitanas. As mulheres têm um padrão de viagem diferente do padrão dos homens porque elas cumprem esse “triple role” (papel triplo, em tradução livre): trabalho produtivo, que gera renda; trabalho reprodutivo e o dos cuidados com a casa e com a família. Essas funções diferentes demandam das mulheres um planejamento do dia diferente. Ainda trabalhamos com neutralidade no desenho do sistema e no monitoramento, mas isso nos dá dados enviesados e faz com que a questão da segurança se torne invisível. Se olhamos para isso, começaremos a fazer uma cidade com um sistema mais inclusivo, com mitigação de impactos negativos do ponto de vista social, econômico e cultural.


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