NOTICIAS: Notícias do PROMOB-e

PROMOB-e

Mobilidade elétrica no transporte público: Entrevista com Gabriel Oliveira, do C40 Cities

O PROMOB-e entrevista deste mês traz temas como mobilidade sustentável e transformações no transporte público
Crédito: Divulgação/C40 Cities
Crédito: Divulgação/C40 Cities

Em setembro, a cidade de São Paulo deu um passo à mobilidade pública mais sustentável: foi lançado um edital que prevê a renovação total da frota de 14 mil ônibus nos próximos 15 anos, abrindo espaço para a implantação de tecnologias de baixa emissão de poluentes como a mobilidade elétrica. Atualmente, o município já testa 15 ônibus a bateria. O objetivo de São Paulo é zerar as emissões de poluentes pelo transporte público nos próximos 20 anos. O PROMOB-e conversou sobre esse e outros temas relacionados à mobilidade sustentável com Gabriel Oliveira, engenheiro de transportes do Grupo C40 de Grandes Cidades para a Liderança Climática (C40 Cities) e coordenador do projeto Acelerador de Implantação Rápida de Ônibus Zero Emissões, conhecido como projeto ZEBRA, parceria entre o C40 e o Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT).

Quais as expectativas para a implementação da mobilidade elétrica no transporte público de São Paulo?

A Lei Municipal de Mudanças Climáticas foi atualizada em 2018 pela cidade de São Paulo (através da Lei nº 16.802) e estabeleceu-se um prazo de 10 anos para a redução de 50% emissões de dióxido de carbono (CO2) dos ônibus usados no transporte municipal e 20 anos para sua total eliminação. No caso do material particulado, a lei prevê uma queda de 95% e a emissão de óxido de nitrogênio (NOx) deverá ser reduzida em 95% até 2028. Esses limites estão refletidos nos contratos de concessão de ônibus assinados em setembro de 2019 e que estabelecem as regras de provisão do serviço pelos próximos 15 anos. Isto é, já existe uma obrigação contratual para a redução de emissões no setor de transporte público.

As tecnologias zero emissões são as únicas capazes de atingir os níveis de redução necessários no longo prazo, trazendo benefícios diretos para a saúde pública e para o nível de ruído das ruas da capital. A questão, até agora, era como viabilizar financeiramente estas tecnologias, que podem ser mais caras no momento da aquisição, mas que apresentam importantes economias de manutenção e operação — até 70% mais barato para operar se comparado com veículos a diesel. Hoje, dois fatores contribuem para isso: o interesse de novos atores como empresas de energias e fundos de investimento interessados não em emprestar dinheiro, mas em adquirir e fazer o leasing de ônibus e/ou baterias; como também a disponibilização de linhas de financiamento diferenciadas de bancos de desenvolvimento nacionais e internacionais para a mobilidade elétrica e opções zero emissões. Com essa conjuntura de fatores, não há por que adiar a transição. Esperamos ver estratégias ambiciosas de introdução de tecnologias zero emissões nos planos a serem apresentados pelos operadores para renovação da frota já nos próximos anos.

A população é beneficiada por esse tipo de iniciativa de que maneiras?

A introdução de ônibus zero emissões contribui enormemente para reduzir as emissões de gases do efeito estufa com efeito global. Mas trazem efeitos ainda mais diretos a níveis locais, em diversos âmbitos. Pesquisa em parceria entre o Instituto Saúde e Sustentabilidade e Greenpeace avaliou os impactos da poluição do ar na saúde da população decorrentes da substituição do diesel por ônibus elétricos. Até 2050, 12.796 vidas seriam salvas se já se tivesse adotado a matriz 100% elétrica. Em valores evitados em mortes (perda de produtividade evitada), a estimativa é de R$ 3,8 bilhões.

Os veículos elétricos, sem combustão interna, diminuem e praticamente anulam o ruído de sua circulação, tendo potencial inclusive de trazer valorização imobiliária no entorno de corredores de ônibus. Também se diminui o incômodo e estresse causado aos próprios passageiros e motoristas com a redução do ruído e vibração interna do veículo. Considerando a vida útil do veículo, esses benefícios podem ser trazidos sem que o custo total para aquisição, operação e manutenção dos veículos aumente.

O Brasil tem potencial para iniciativas de mobilidade sustentável? Qual a importância da mobilidade elétrica para essa transformação?

O Brasil tem potencial para iniciativas de mobilidade sustentável e espera-se ver uma conjunção de esforços nesse sentido nos próximos anos. Precisamos avançar de forma mais ambiciosa em iniciativas que já existem. Esforços importantes incluem planos municipais como o de São Paulo em reduzir drasticamente suas emissões em 20 anos; um programa federal como o Rota 2030 que traga maior enfoque em tecnologias zero emissões; uma mensagem clara do setor financeiro para disponibilizar apoio e crédito à eletromobilidade e um compromisso da indústria e de fabricantes de ônibus de trazer opções zero emissões que já são vendidas em outras regiões do mundo, aproveitando plantas já estabelecidas no país.

A Colômbia recentemente promulgou uma lei nacional de promoção de veículos elétricos (Lei 1964/2019), estabelecendo estes tipos de incentivos econômicos e obrigações como: redução de tarifas, descontos de 10% no seguro obrigatório de acidente de trânsito, percentual mínimo (2%) de espaços de estacionamento para veículos elétricos a ser implementado em 12 meses, obrigatoriedade de municípios a terem uma cota mínima de 30% de veículos elétricos no serviço de transporte público até 2025. A rediscussão de um Plano Nacional de Eletromobilidade, que já havia sido iniciada no Executivo Federal, e de iniciativas similares na Câmara de Deputados, também ajudaria neste sentido.

Quantas cidades são apoiadas pelo projeto Zebra no Brasil e na América Latina?
O projeto Zebra tem quatro cidades foco na América Latina: Santiago (Chile), Medellín (Colômbia), Cidade do México e São Paulo. Estas cidades foram escolhidas por já terem algum tipo de compromisso político para introdução de tecnologias zero emissões no momento de concepção do projeto e contam com um apoio próximo da equipe do C40 e do ICCT na definição de estratégias técnicas e financeiras para implementação de ônibus elétricos. O ICCT é responsável pelo fomento à indústria, enquanto o C40 se responsabiliza por engajar mais instituições financeiras para desenvolvimento de novos negócios em cada uma destas quatro cidades. Na América Latina, fora as 12 cidades da rede C40 (além das quatro anteriores, Curitiba, Salvador, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Lima, Bogotá, Quito, Guadalajara), outras 10 cidades que também estão engajadas em projetos similares também fazem parte de discussões periódicas sobre o tema. 

Há projetos similares em andamento em outras cidades brasileiras?

As outras cidades brasileiras da rede C40, Curitiba, Rio de Janeiro e Salvador, estão amplamente engajadas na redução de emissões no setor de transporte e por isso também já discutem planos ambiciosos de introdução de ônibus zero emissões em suas frotas. Dessa forma, estas cidades estão envolvidas no projeto Zebra na troca de experiências em iniciativas de mobilidade elétrica no transporte público, estando conectadas com Santiago do Chile, que já possui uma frota de quase 400 ônibus elétricos, Medellín, que em breve receberá seus primeiros 64 ônibus, entre outras. No início de novembro, 15 cidades latino-americanas, incluindo as quatro cidades brasileiras da C40 e Belo Horizonte, estarão em Santiago para participar de uma oficina, definir metas comuns e trocar experiências sobre o tema.

Leia também

Comentários (0) Postar comentário ›

Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

Li e aceito os termos da Política de Privacidade.

Usamos o Akismet para a redução de spam. Saiba como seu comentário é processado.