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PROMOB-e Entrevista

Debatendo mobilidade e gênero, diretora do Promundo no Brasil é a primeira convidada da série PROMOB-e Entrevista

O Instituto Promundo é uma organização não governamental que atua em diversos países do mundo buscando promover a igualdade de gênero e a prevenção da violência com foco no envolvimento de homens e mulheres na transformação de masculinidades

A partir de hoje, o site do PROMOB-e começa a publicar uma série de entrevistas com profissionais renomados de diversas áreas falando sobre mobilidade elétrica.

Dando início a esta série de entrevistas e aproveitando que estamos no mês das mulheres, convidamos Tatiana Moura, diretora do Instituto Promundo no Brasil e coordenadora do Promundo em Portugal, para conversar sobre mobilidade e gênero.

1) Qual a relação entre: equidade de gênero e mobilidade urbana?

Para falarmos sobre mobilidade e gênero, temos que pensar o tipo de  mobilidade necessária para mulheres e para homens. Os homens ainda se movimentam muito mais nesse circuito casa e mercado formal de trabalho. As mulheres movimentam-se no acesso a esse mercado formal de trabalho também, mas, porque as desigualdades de gênero ainda existem, continuam tendo a grande porcentagem da responsabilidade nas tarefas de cuidado. Seja por levar crianças na escola, na creche ou cuidar de outros membros da família, elas têm diferentes necessidades no acesso à cidade.

A promoção da equidade de gênero relacionada à mobilidade urbana, deve levar em conta políticas amigáveis de gênero e que promovam a prevenção de violências. Devemos pensar em espaços amigáveis para mulheres no acesso à cidade. Isso significa espaços integrados, que tenham boa conexão, onde exista facilidade para acessar e transportar com bebês, carrinhos de bebês e pessoas cadeirantes, por exemplo. Que sejam integrados para facilitar dois, três, quatro transportes que precisam pegar. E esses espaços amigáveis servirão, por extensão, aos homens que já são cuidadores, por mais que ainda sejam minoria. Nesse sentido, devem comunicar a possibilidade de uso para qualquer cuidadora ou cuidador, também como forma de promoção da equidade de gênero.

Por um lado, é preciso pensar esses espaços amigáveis para circulação, que contribuam também para a economia do tempo, ao longo do dia. Por outro, também é preciso garantir espaços seguros, porque nós sabemos que as mulheres são mais vulneráveis a determinados tipos de violência urbana. Por exemplo, furtos ou assaltos, a que mulheres e homens estão expostos, mas aos quais as mulheres continuam sendo as mais vulneráveis; e violência sexual ou assédio, que afetam particularmente mulheres.

Acredito que, quando se pensa políticas de mobilidade sensíveis às questões de gênero, deve-se ter esses dois pontos em consideração.

 

2) No que diz respeito à mobilidade urbana (acesso à cidade) com foco principal na questão elétrica, quais comportamentos e atitudes relacionadas a gênero você acredita que precisam ser questionados?

Os projetos de mobilidade elétrica devem aprender com tudo que deu errado com a mobilidade não elétrica. Em termos de transportes públicos, sabemos quais são os principais desafios para mulheres em transportes não elétricos, que têm tido grande impacto na mídia.

Acredito que, por exemplo, a criação de vagões rosa não resolva o problema. O que devia ser uma estratégia temporária, acabou por ser algo que ficou ao longo de anos, não se pensando na prevenção. Todo planejamento de mobilidade elétrica urbana deve ter como uma de suas prioridades a implementação de políticas de prevenção e tolerância zero em relação a comportamentos abusivos e violentos. Claro que é um trabalho de médio e longo prazos.

Por outro lado, acredito que dentro das próprias empresas deve ser feito um trabalho de promoção da equidade de gênero. Sabemos que as empresas relacionadas à mobilidade, de uma forma geral, seja elétrica ou não elétrica, são espaços majoritariamente masculinos e que devem promover cada vez mais a integração de mulheres desde a equipe mais da ponta até os cargos de gestão. Porque ter (e escutar) mulheres nessas equipes ajuda a pensar a partir de um ponto de vista feminino, já que, muitas vezes, só quem vive esses desafios no dia a dia é quem se lembra de determinados pontos que são importantes de incluir.

 

3) Sobre sua experiência no Promundo, sabemos que o Promundo tem um trabalho pioneiro no envolvimento de homens como aliados na promoção de equidade de gênero. Por que vocês decidiram ter esse foco de atuação?

A missão do Promundo é promover a equidade de gênero e construir um mundo livre de violência envolvendo homens e meninos em parceria com mulheres e meninas. O Promundo desenvolve pesquisas e metodologias de prevenção de violência de gênero, por isso o foco de ação com homens jovens e com homens de uma forma geral.

Nós sabemos que falar de gênero significa falar do que as sociedades entendem como masculino e feminino e as desigualdades e violências produzidas a partir dessas construções sociais. Mulheres são uma parte da equação. Muitas vezes, pessoas se referem a gênero como se fosse sinônimo de mulheres. E nós sabemos que as relações de gênero são compostas tanto pelo que se espera dos homens, quanto pelo que se espera das mulheres. O Promundo acredita que, para prevenir as violências baseadas em gênero, que tem como principais autores os homens, é necessário envolvê-los, estimulando a mudança de atitudes e promovendo masculinidades não violentas.

Nós sabemos também que nem todos os homens são autores de violência. Os homens também são vítimas do sistema patriarcal e muitos optam, de forma consciente, por não usar violência. A perspectiva do Promundo é olhar para essas masculinidades, que são mais equitativas e que são não violentas e pensar formas de ampliar em escala social esses comportamentos. Acreditamos que, olhar para as masculinidades e trabalhar na promoção de masculinidades não violentas é parte fundamental do esforço para alcançarmos equidade no mundo.

Nos voltamos principalmente para os esforços de prevenção de violências. Para as respostas às violências existem outras organizações, que são nossas parceiras em alguns projetos.

 

4) Quais os avanços e desafios que você consegue visualizar no campo da mobilidade urbana/elétrica relacionados a gênero, fora do Brasil, que podem servir de exemplo?

Nos países europeus há um esforço em promover um maior grau de integração da cidade. Uma vantagem é que os espaços periféricos não estão tão afastados (em termos de tempo e acesso) dos espaços mais centrais da cidade, portanto há muito essa interação e essa mobilidade. A/O jovem que estuda numa escola que geograficamente fica mais afastada do centro, tem acesso a espaços culturais que estão mais no centro.

O poder de integração da cidade, por meio da mobilidade urbana, é um enorme avanço na promoção do empoderamento e construção da autonomia de mulheres e de meninas. Ao mesmo tempo a gente vê que há uma atenção particular a possíveis casos de violência ou de assédio em transportes públicos, portanto, quando esses casos acontecem, são levados a sério judicialmente.

Sobre esse aspecto, gostaria de indicar a leitura de resultados do estudo “Guia para a Integração no Nível Local da Perspectiva de Gênero em Mobilidade e Transportes” que foi realizado em Portugal por uma equipe de pesquisa do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, onde o Promundo-Portugal está. O estudo apresenta boas práticas de promoção da equidade de gênero em mobilidade e transportes, contendo iniciativas que foram implementadas por governos e organizações não governamentais desde os anos 90, e está disponível aqui.

Outro aspecto positivo é que há um maior cuidado no desenho da integração dos transportes, para que haja uma economia do tempo, para que não se passe um terço do dia ou mais nas conexões. Essa economia do tempo faz com que as pessoas tenham mais tempo, por exemplo, no final do dia, para estarem com a família, com sua/seu companheira/o, para terem acesso a uma vida cultural, para que tenham um tempo de qualidade além daquele que estão dormindo ou trabalhando formalmente e isso gera maiores índices de felicidade. Se olharmos, por exemplo, para a Dinamarca, Suécia e Finlândia, nós vemos que são países que privilegiam muito esse tempo livre. Claro que estamos falando de países com cidades que, em termos de dimensão, são muito menores, mas que são bons exemplos por pensarem nessas questões.

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